A Natureza do Márcio Sztutman
Após décadas de luta, recentemente a maioria dos povos indígenas amazônicos conseguiram a titulação legal de suas terras ancestrais. Somadas, estas terras representam mais que 20 por cento de toda a Bacia Amazônica. Aqui, o Coordenador de Terras Indígenas da The Nature Conservancy descreve sua própria transição, de um acadêmico de São Paulo à um mestre da silenciosa arte de escutar. Minha Evolução/ Quando me formei em biologia, desenvolvi trabalhos com taxonomia e ecologia vegetal- tudo muito acadêmico. Mas sentia que estava tendo um impacto apenas indireto na conservação ambiental. Pouco a pouco, percebi que uma das maneiras mais efetivas de proteger o meio ambiente, especialmente na Amazônia, seria trabalhando com as populações indígenas, aquelas que estão mais intimamente conectadas a natureza e que são mais diretamente impactadas por sua destrução. Valorizando as Florestas Vivas/ A Bacia Amazônica possui a maior biodiversidade da planeta e é habitada por mais de 200 diferentes povos indígenas. Porém, somente no ano passado, quase 3 milhões de hectares de florestas Amazônicas foram destruidos devido expansão da pecuária, exploração madeireira e agricultura intensiva. A TNC tem desenvolvido uma rede de parcerias com organizações indígenas e indigenistas. Juntos, estamos promovendo políticas públicas para conservação de florestas e desenvolvendo ferramentas que ajudam as comunidades na gestão e proteção dos seus recursos naturais.
Escutar Primeiro/ Uma das primeiras coisas que faço quando entro em contato com um grupo indígena é começar um longo período de “namoro,” ás vezes convivendo nas aldeias por três ou quatro meses, para conhecer a realidade local e desenvolver a confiança mútua. Precisamos aprender a ouvir em vez que falar. Precisamos ser flexíveis para adaptar o conhecimento à realidade local. No início, as pessoas podem ser desconfiadas, já que foram enganadas muitas vezes no passado. Cada comunidade é diferente, com seus desafios, tradições e formas de manejo de recursos naturais. Precisamos aprender a lidar com este mundo diverso. Depois deste contato inicial, possivelmente começamos com processos de planejamento ambiental. Umas das ferramentas mais interessantes deste processo é o que chamamos de etnomapeamento. Começamos com imagens de satélite da área indígena. Depois, os membros das comunidades interpretam as imagens inserindo informações sobre os usos da terra. Os mapas resultantes mostram onde as pessoas caçam, onde estão seus lugares sagrados. Esses mapas ajudam na identificação de áreas sob estresse ambiental. Tudo isso ajuda as comunidades à desenvolver planos para o uso sustentável dos territórios indígenas. Esses mapas representam uma ligação entre o conhecimento tradicional indígena e a ciência do mundo ocidental. Realidades Amazônicas/ Existem momentos em que me sinto em tamanha sintonia com nossos parceiros que o trabalho é extremamente gratificante. Outras vezes, quando dedico meses de trabalho a um projeto mas o momento ainda não era certo, a situação se torna muito frustante. Acho que meus momentos mais difíceis são quando não consigo cumprir com as expectitivas das pessoas, devido à falta de comunicação ou entendimento mútuo. Conhecimento Respeitável/ A Amazônia não vai ficar igual para sempre, nem voltará ao que era antes. Mas, através de trabalhos conjuntos, podemos favorecer um desenvolvimento que respeite tanto as comunidades indígenas quanto seus territórios. Na floresta, não há dois dias iguais. É uma explosão de cores, formas, sons. Mas a floresta vai além da beleza. Os povos indígenas possuem um profundo conhecimento sobre o meio ambiente, conhecendo toda sua lógica. Isso é uma algo que acredito deveria ser preservado.
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