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Silvia Ziller

Sílvia Ziller

Sílvia Ziller, num esforço singular, criou consciência sobre espécies invasoras em boa parte da América Latina. Ela tem influência sobre políticos, empresas de papel e celulose, e está mantendo os Pinus no lugar apropriado.

A TNC no Brasil

O maior país na América do Sul, o tesouro natural do Brasil não tem comparação, abrangendo o Amazonas, a savana do Cerrado, as terras áridas da Caatinga, a Mata Atlântica, e as aparentemente infinitas terras alagadas do Pantanal.

Silvia Ziller

A engenheira florestal da TNC e especialista de espécies invasoras da América Latina fala sobre a luta de sobrevivência de árvores, sapos, e peixes no seu Brasil, sobre a urgência de agir rápido, e sobre sua grande idéia para uma telenovela.

Por Courtney Leatherman


The Nature Conservancy: Você ajudou o Estado do Paraná a passar a primeira lei do País de espécies invasoras, que abrange mais de 70 animais e plantas problemáticas. Porque isto é significativo?

Sílvia Ziller: A lei exige dos viveiros estaduais e municipais de não produzir nenhuma dessas mudas que estão na lista, tendo em vista que os viveiros distribuem mudas gratuitas com serviço social. Estamos tentando fazer com que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) torne lei federal e que reconheça a lista das espécies invasoras por dois anos. O Ministério vai fazer isso, mas o Paraná foi mais rápido.

TNC: Parece que rapidez é importante para você. Ouvi falar que você está sempre correndo, de aeroporto a aeroporto. Já atropelou alguém na alfândega?

Silvia Ziller: Não, eu apenas me apresso para ficar na frente. Não quero ficar na fila.

TNC: OK, então, vamos ao assunto. Você está praticamente sozinha nessa empreitada. É surpreendente o fato que a discussão sobre invasoras é nova na região?

Sílvia Ziller: Esta discussão falta na maioria dos paises. As exceções são os Estados Unidos, a Nova Zelândia, África do sul e a Australia. Claro que a mudança climática é um problema grande, no entanto, colocaria espécies invasoras no mesmo patamar. O único problema pior é a conversão de ambientes naturais.

TNC: Nos Estados Unidos falamos muito sobre invasoras como mexilhões zebra e kudzu (espécie de trepadeira) entrando em nosso país, mas eu nunca soube de espécies que exportamos. Quais são alguns dos piores agressores dos EUA no Brasil?

Sílvia Ziller: Árvores da espécie Pinus e rã-touro. Esses foram importados. As rãs nunca conseguiram estabelecer um mercado comercial.

TNC: Você quer dizer que eles foram promovidos como coxas de rã? Para comer?

Sílvia Ziller: Sim. Mas a maioria das pessoas nem tocaria neles. Como os caracóis africanos que foram introduzidos como comida. Hoje eles são uma peste muito séria no Brasil. Em torno de 85% de espécies invasoras terrestres e de água doce foram introduzidos de propósito. Apenas 15% foram acidentais.

TNC: Então, quando você soube que as  invasoras iam ser sua linha de trabalho?

Sílvia Ziller: Eu nem sabia que elas existiam até 1996, quando estava fazendo trabalho ambiental. Eu sabia que estava interessada em ecologia. Sabia disso desde que tinha 13 anos. Assisti “The Voyage of the Beagle” e pensei que queria ser naturalista.

TNC: Mas no final você obteve um Ph.D na área florestal, estudando Pinus invasores e, praticamente, se tornando a primeira pessoa no Brasil a lidar com espécies invasoras.

Silvia Ziller: Tinha a opção de ser professora, mas prefiro fazer trabalho prático. Eu estava acompanhando a trajetória dos Pinus nos campos e nas margens dos rios do Paraná .

TNC: Seu trabalho tem gerado resultados fantásticos. No entanto, ouvi falar que você é a ovelha negra da faculdade de engenharia florestal de Curitiba.

Sílvia Ziller: Tem pessoas que ainda acham que eu sou contra Pinus e plantios florestais. Isso não é o caso. Trata-se de manejo florestal apropriado.

TNC: Então como você faz manejo apropriado de plantio florestal de Pinus cujos sementes são dispersadas pelo vento?

Sílvia Ziller: Não plantar em topos de morros e encostas; mantenha distãncia das margens de rios; plante barreiras de quebra-vento ao redor dos talhões florestais para reduzir a dispersão de sementes para outras áreas.                             

TNC: Quais outras espécies lhe preocupam?

Sílvia Ziller: Peixes. As pessoas estão promovendo tanto os peixes, e eles são extremamente destrutivos aos ecossistemas. O Brasil tem a maior biodiversidade de peixes de água doce no mundo. E estamos sob risco de perder tudo – tudo para (importados como) tilápia, carpa, truta e bagre (africano).

TNC: Com todo esse trabalho urgente, como é que você tem tempo para astrologia e tarô?

Sílvia Ziller: Quem te disse isso?

TNC: Nunca revelo as minhas fontes.

Sílvia Ziller: Terei que ler as cartas para descobrir. Leio cartas de tarô, e me dedico à astrologia. Te digo por quê: Somos criados num mundo que depende demais da ciência, que depende demais de qualquer coisa que seja racional. Essas outras coisas trazem alegria, encanto e charme, e não são racionais. Eu gosto essas coisas porque trazem certa magia a vida cotidiana.

TNC: Às vezes o seu trabalho lhe decepciona?

Sílvia Ziller: Não tenho tempo para pensar desse jeito. Se as pessoas estivessem cientes, aí as coisas mudariam. Se pudéssemos inserir isto (mensagem sobre invasoras) numa telenovela ....

TNC: Isso é um objetivo?

Sílvia Ziller: Isso não sai do meu pensamento. Seria mais eficiente do que falar sobre invasoras no noticiário.

 

Fotos (esquerda para direita, de cima para baixo): © Cara Goodman; © Lalo Almeida.